Territórios, antirracismo e narrativas plurais marcam as discussões do segundo dia do Encontro Paulista de Museus

Publicado em: 10 Nov 2022
SISEM-SP

A criação do Museu das Favelas foi destaque na roda de conversa pela capacidade de agregar diferentes vozes inviabilizadas dentro de museus tradicionais

O segundo dia de programação (09/11) do 12º Encontro Paulista de Museus promoveu dois painéis no período da tarde, com discussões sobre o estímulo da convivência e o respeito a todas as formas de vida, além de trazer à tona a concepção de espaços como produtores de relações entre poder, memórias, patrimônios e identidades.

Organizado pelo Sistema Estadual de Museus (SISEM-SP), e a organização social ACAM Portinari, instâncias da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, o EPM deste ano aborda o tema “Bem-viver, território, antirracismo, diversidade: com quantos termos se faz um museu?”. O tópico “território” esteve bastante presente nas discussões do primeiro painel “Estudos do Meio: promoção da convivência e respeito a todas as formas de vida”.

O debate contou com a participação de Ana Sanches, doutoranda no Programa de Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), Tiaraju Pablo D’Andrea, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no Instituto das Cidades/Campus Zona Leste. A articulação foi comandada por Inês Gouveia, doutora em Museologia e Patrimônio e mestre em Memória Social.

Territórios e Antirracismo

A nova definição de museus do ICOM Brasil foi destaque nas discussões do painel. Os termos “território”, que é descrito como espaço vivido onde se tecem relações entre poder, memórias, patrimônios e identidades, e o “antirracismo”, postura que visa combater e romper o racismo estrutural e o seu processo histórico institucional por meio de práticas e valores a superar a colonialidade, foram ressaltados pelos convidados à mesa.

Tiaraju ressaltou que o incentivo político e privado no espaço urbano é aplicado, muitas vezes, nas regiões centrais e bairros nobres, o que gera uma desigualdade social e afastamento das pessoas da periferia na produção social das cidades, “por isso se cria uma cultura na periferia, um do modo de vida e relacionamento entre as pessoas que estão inseridas nesses territórios”, afirmou. “As periferias deveriam ser o foco dos planejamentos urbanos, já que são as pessoas das periferias que constroem e movem as cidades, mas, que muitas vezes, não são incluídas nas discussões e estruturação das cidades”, completou Ana Sanches.

Foi feita uma aproximação entre a desigualdade no planejamento das cidades e o racismo ambiental. “Quando um determinado povo vive, em sua grande maioria, em um território que é atacado, seja na perspectiva de segurança ou na supressão de práticas religiosas, por exemplo, devemos considerar como racismo ambiental, já que aquela comunidade não consegue ter uma vida sustentável. Uma vida sustentável não somente na questão ambiental, mas no campo da problemática social, pois dentro da sustentabilidade devemos ter o direito de usufruir da segurança”, completou Ana.

Opressão social, desigualdades de classe e territoriais são evidentes nas periferias urbanas, e, por isso, as populações desses territórios se organizam politicamente para reivindicações, “esses povos lutam pelo bem-estar e melhorias nas condições de vida e essas lutas vão além do povo periférico e tornam-se exigências para toda a sociedade”, refletiu Tiajuru.

Na área museal, Inês Gouveia destacou a importância da criação do Museu das Favelas, uma instituição que poderá potencializar as narrativas plurais das comunidades e produção cultural periférica. “Eu vejo são necessárias, cada vez mais, políticas públicas de incentivos para museus comunitários e museus nas favelas, sobretudo museus que preservam a história e as memórias de territórios e localidades que, em sua maioria, ficam muito apagados pela história oficial”, finalizou Tiajuru.

Memórias e narrativas plurais

No segundo momento da tarde, a programação seguiu com o painel “Território e Economia: circulando as memórias e ativando as comunidades”. Participaram Esmeralda Serpa, docente do curso superior de Tecnologia em Gestão de Turismo no Centro Paula Souza (FATEC); e Maria Valini, idealizadora do Fórum de Cultura do Grajaú, Rodas de Construção do Conhecimento, Ateliê de Escrita e CAPSArtes.

Com articulação de Diana Poepcke, as convidadas compartilharam suas experiências inspiradoras na coordenação de projetos colaborativos com as comunidades. Maria Valini apresentou o CAPSArtes e atividades desenvolvidas no espaço, como rodas de construção de conhecimento, saraus, cafés filosóficos, ateliês de escrita. “As atividades envolvem toda a comunidade das mais variadas profissões, a fim de potencializar intelectualidade dos territórios periféricos, entendemos que nós temos talentos para edificar e multiplicar”, afirmou.

Esmeralda contou sobre sua trajetória como docente em Turismo na ETEC Martinho Di Ciero em Itu, interior de São Paulo, e narrou a trajetória de seu trabalho como guia turístico no município. “Buscávamos parceria na cidade, estudávamos o espaço geográfico, o cotidiano da comunidade local para mostrar as histórias daquele território”, comentou Esmeralda.

“As memórias devem ser fiéis à história e não uma simples reprodução das narrativas tradicionais ensinadas nas escolas. O museu deve contemplar diversas vozes e memórias, trazendo a realidade  para dentro das instituições. Isso promoverá o pertencimento de pessoas que nem sempre são representadas nos museus”, finalizou Esmeralda.